A Fundação Carolina promove relações culturais, educativas e científicas entre a Espanha e a Ibero-América, especialmente por meio de programas de bolsas, formação e mobilidade acadêmica
No dia 7 de abril de 2026, no âmbito do Programa Brasil-Espanha, promovido pela Fundação Conselho Espanha-Brasil, realizou-se uma reunião entre a delegação de acadêmicos e jornalistas brasileiros convidados e os representantes da Fundação Carolina. O encontro ocorreu em Madri e constituiu uma das primeiras atividades do programa, voltado a fortalecer os vínculos bilaterais entre os dois países por meio do diálogo entre atores acadêmicos, midiáticos e institucionais.
Durante o encontro, os representantes da instituição anfitriã apresentaram sua estrutura, missão e principais linhas de atuação. A Fundação Carolina é uma entidade de natureza público-privada integrada ao sistema espanhol de cooperação para o desenvolvimento, vinculada funcionalmente ao Ministério dos Assuntos Exteriores, União Europeia e Cooperação, atuando também no âmbito da Secretaria de Estado de Cooperação Internacional. Sua atividade se organiza em torno de quatro grandes áreas: formação e bolsas, análise política, diplomacia pública e a Rede Carolina.
Área I – Formação e bolsas
A principal atividade da Fundação Carolina é a convocatória anual de bolsas de formação, com especial vocação ibero-americana. A instituição oferece até 720 bolsas por ano, das quais aproximadamente 150 correspondem ao nível de doutorado. As bolsas de mestrado constituem a maior parte da oferta e têm o maior impacto em termos de número de beneficiários. Para sua gestão, a Fundação mantém acordos com mais de 60 universidades na Espanha e mais de 200 no mundo. Os beneficiários são principalmente estudantes provenientes da América Latina, sendo as bolsas de mestrado orientadas exclusivamente para formação em universidades espanholas.
O Brasil dispõe de um programa especial, embora o número de candidaturas tenda a ser menor do que em outros países da região, tanto pelo alto nível acadêmico dos candidatos brasileiros quanto pelo interesse diferenciado que a Fundação desperta no setor privado, dada a composição de seu patronato. Para o nível de doutorado, promove-se um programa de quatro anos de duração, cofinanciado, no qual os candidatos são apresentados por suas universidades de origem, com o objetivo, entre outros, de evitar a fuga de talentos. A Fundação também manifestou interesse em promover o intercâmbio de cientistas em colaboração com o Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC).
No que diz respeito à dotação financeira, as bolsas de mestrado giram em torno de 900 euros mensais, enquanto as de doutorado alcançam cerca de 1.200 euros. O orçamento global destinado às bolsas chega a 5 milhões de euros anuais. Adicionalmente, a Fundação financia bolsas em meios de comunicação de referência como El Mundo, El País e a Agência EFE. Foi levantada como questão técnica relevante a falta de equivalência formal entre o título de mestrado europeu e o correspondente título brasileiro, o que pode gerar dificuldades nos processos de reconhecimento acadêmico.
Área II – Análise política e qualidade das democracias
A segunda área de atuação está orientada à geração de conhecimento aplicado sobre os grandes desafios democráticos e institucionais da região ibero-americana. A Fundação publica até 30 análises anuais e 6 livros, complementados por ciclos de conferências, algumas realizadas na América Latina. Suas linhas temáticas prioritárias incluem a digitalização, a inteligência artificial, os desafios democráticos e a segurança — um campo tradicionalmente pouco abordado pela cooperação. A Espanha também se posiciona como país pioneiro na elaboração de um mapeamento sistemático de conselhos científicos em seus ministérios.
Entre suas atividades formativas, destacam-se os cursos de verão organizados em colaboração com diversas universidades, como os realizados na Universidade Internacional Menéndez Pelayo (sobre digitalização e democracia), na UCM-El Escorial (política feminista) e na UNED de Pontevedra (educação superior). As análises publicadas servem de base para a organização de espaços de diálogo com vozes plurais — latino-americanas e espanholas —, em um modelo de publicação de acesso aberto voltado a maximizar a difusão e o uso dos conteúdos.
Área III – Diplomacia pública
A Fundação Carolina gerencia diversos programas de diplomacia pública voltados à construção de redes de liderança e influência entre Espanha e Ibero-América. O Programa de Jovens Líderes, desenvolvido em colaboração com o Banco Santander, é dirigido a pessoas entre 21 e 35 anos e combina visitas à Espanha, Portugal e Bruxelas com o objetivo de criar uma rede ibero-americana de líderes emergentes. Da mesma forma, a Fundação administra um Programa de Jornalistas Ibero-Americanos, em colaboração com a Fundação El Corte Inglés, e um Programa de Funcionários, desenvolvido junto à Telefónica.
A instituição também presta apoio funcional às embaixadas espanholas na região, colaborando na organização de visitas e ocupando espaços de ação diplomática de difícil acesso para as representações diplomáticas devido à sua própria natureza institucional.
Área IV – Rede Carolina
A quarta linha de atuação consiste na manutenção e dinamização de uma rede de ex-bolsistas e colaboradores vinculados à Espanha e à América Latina. A Rede Carolina tem como objetivo gerar vínculos duradouros entre jovens latino-americanos e a Espanha por meio de atividades culturais, acadêmicas e de networking. A Fundação trabalha ativamente para que as instituições de seu entorno abram suas portas aos membros da rede, facilitando assim o aproveitamento do capital relacional construído ao longo dos anos.
Estrutura institucional e modelo de gestão
A Fundação Carolina conta com uma equipe de 28 pessoas e um orçamento total de 7 milhões de euros anuais, com uma distribuição aproximada de 70% de recursos públicos e 30% de caráter privado. Essa proporção representa uma mudança significativa em relação ao modelo anterior, no qual o financiamento público e privado era mais equilibrado, e responde, em parte, ao fato de que grandes empresas do patronato passaram a desenvolver suas próprias fundações. Seu caráter híbrido público-privado é considerado internamente seu traço institucional mais distintivo e, ao mesmo tempo, mais funcional, pois lhe permite operar com maior flexibilidade do que outros atores do sistema de cooperação.
A Fundação apoia-se na rede de embaixadas espanholas e escritórios de cooperação para facilitar sua atuação no terreno, especialmente em países onde o acesso é mais complexo. No entanto, identificam-se dificuldades decorrentes da barreira linguística, particularmente no caso do Brasil, onde o português constitui uma fronteira simbólica e operacional, somada à distância geográfica. A partir das representações diplomáticas, trabalha-se na promoção do valor estratégico do espanhol como ativo compartilhado e no aprofundamento dos vínculos do Brasil com o restante da América Latina como vetor de desenvolvimento regional.
Debate e intervenções destacadas
Durante o encontro, foi criado um espaço de diálogo aberto entre a delegação brasileira e os representantes da Fundação Carolina. Nesse contexto, Pedro Dallari tomou a palavra para compartilhar sua experiência como participante de um programa da Fundação Carolina na América Central, na área de Direitos Humanos, destacando o trabalho da instituição como extraordinário e de grande rigor acadêmico.
O encontro permitiu, em suma, projetar uma imagem dinâmica e institucional das relações hispano-brasileiras no âmbito do Programa Brasil-Espanha, contribuindo para o objetivo de fortalecer os vínculos entre ambas as sociedades.
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