Programa Cúpulas Ibero-Americanas: Grupo PRISA

Programa Cúpulas Ibero-Americanas: Grupo PRISA

08.04.2026

O Grupo PRISA é um dos principais grupos de comunicação no mundo hispanofalante, com presença em imprensa, rádio, educação e conteúdos digitais

Etiquetas Actividad FCEB

No âmbito do Programa Brasil-Espanha, a delegação de acadêmicos e jornalistas brasileiros visitou a sede do jornal El País, onde percorreu a redação e manteve um diálogo com três de seus responsáveis editoriais: Miguel González, jornalista especializado em política nacional; Lucía Abellán, redatora de Economia e ex-correspondente em Bruxelas; e Guillermo Altares, editor-chefe de Internacional. A visita constituiu uma oportunidade única para explorar como um dos meios de comunicação em espanhol de maior projeção internacional constrói sua agenda informativa, cobre a política espanhola e europeia e percebe a relação da Espanha com a América Latina.


Política espanhola: cenário de governo e polarização

Miguel González apresentou um panorama detalhado do cenário político espanhol. O atual governo de Pedro Sánchez chegou ao poder em 2018 por meio de uma moção de censura ao PP, desencadeada pela sentença do caso Gürtel. Após duas eleições gerais em 2019 e a formação de um governo de coalizão com a esquerda e os partidos nacionalistas catalães e bascos, Sánchez consolidou, em 2023, sua posição apesar de não ter sido o partido mais votado, ao ser o único capaz de articular uma maioria parlamentar. Essa maioria, embora extremamente frágil, demonstrou uma notável capacidade de sobrevivência política.

O desempenho econômico tem sido o principal ativo do governo: a Espanha é o país da OCDE com maior crescimento, sustentado em grande medida pelos fundos europeus NextGenEU. No entanto, esse sucesso macroeconômico convive com uma percepção cidadã negativa, concentrada sobretudo na crise da habitação, na precariedade laboral e no aumento do custo de vida. González destacou que Sánchez transformou a política em um campo de alta polarização: desperta forte rejeição em amplos setores do eleitorado e uma adesão igualmente intensa em outros.

Sobre o VOX, González explicou que o partido se tornou a força com maior crescimento entre os jovens, especialmente homens, estruturado em torno de um nacionalismo espanhol que encontra seus limites nas comunidades com identidade territorial própria e maior penetração em áreas com menor arraigo identitário regional.


Economia espanhola: fortalezas, tensões e o euro digital

Lucía Abellán apresentou uma análise detalhada da situação econômica. Os dados macroeconômicos são sólidos: crescimento de 2,8%, o maior da zona do euro; déficit público em torno de 2,2% do PIB; inflação de 2,3% em fevereiro, com aumento para 3,3% em março, possivelmente ligado à crise energética no Oriente Médio. As energias renováveis já representam mais de 50% do mix elétrico, o que colocou a Espanha em uma posição ambígua após o apagão de abril de 2025, frequentemente atribuído à dependência dessas fontes. O desemprego, historicamente o “calcanhar de Aquiles” espanhol, situa-se próximo de 10%, em níveis mínimos históricos, e a temporalidade laboral caiu de 30% para 15% graças à reforma trabalhista.

A principal preocupação social é a crise da habitação: insuficiência da oferta residencial frente ao crescimento populacional, entrada massiva de investimento estrangeiro especulativo e uma tradição de propriedade frente a um mercado de aluguel ainda pouco desenvolvido. O endividamento privado é sustentável enquanto as taxas de juros permanecerem controladas, mas a experiência da crise anterior gera preocupação estrutural.

Quanto à política fiscal, Abellán destacou que o sistema depende excessivamente do imposto sobre a renda, enquanto o imposto corporativo apresenta uma carga efetiva reduzida para grandes empresas devido a deduções e acordos de dupla tributação. O euro digital, promovido pelo Banco Central Europeo, está previsto para 2029-2030 e enfrenta resistência de empresas como Visa e MasterCard no Parlamento Europeu, embora se espere sua implementação. Abellán destacou que o principal beneficiário será o comércio varejista, pela eliminação de taxas de transação.


O olhar internacional de El País: Brasil, Israel e o papel da Espanha

Guillermo Altares situou a cobertura do Brasil no El País dentro de um interesse essencialmente político: Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro são figuras que tiveram grande presença na Espanha e despertam atenção e análise comparativa. Em relação à política internacional, Altares foi questionado sobre o impacto de Donald Trump na relação entre Espanha e América Latina: em sua opinião, o que mudou foi sobretudo a relação dos EUA com a região, não a da Espanha. A Espanha continua buscando relações com Estados, e não com governos, consciente de que os vínculos bilaterais transcendem ciclos ideológicos.

Sobre o conflito no Oriente Médio e Gaza, Altares foi questionado sobre o uso do termo genocídio na cobertura do jornal. Sua resposta foi clara: em textos de opinião, sim; em textos informativos, não. O critério editorial é contextualizar: o termo é atribuído a quem o utiliza, sem que o jornal o adote como próprio nas reportagens. O objetivo, destacou, é oferecer ao leitor ferramentas para formar sua própria opinião.

Em relação à Venezuela e ao papel de José Luis Rodríguez Zapatero como interlocutor com o regime, Altares adotou uma posição pragmática: um país precisa manter canais com atores difíceis; a questão é avaliar até que ponto esses canais servem para libertar presos políticos ou outros fins. Sobre casas de apostas, tema levantado pela delegação brasileira, Abellán indicou que a regulação na Espanha ainda é limitada, centrada na publicidade, e que não foram identificados desequilíbrios financeiros significativos.


Reflexão conjunta

O encontro evidenciou o valor de espaços de diálogo direto entre jornalistas de diferentes países que cobrem realidades com pontos de contato evidentes: polarização política, populismos, crise da democracia e volatilidade econômica. A visita à redação do El País permitiu à delegação brasileira compreender a estrutura editorial, os critérios de cobertura internacional e a forma como um meio de referência em espanhol gerencia suas responsabilidades informativas em um contexto de elevada tensão geopolítica. O intercâmbio foi, nas palavras de vários participantes, uma das jornadas mais enriquecedoras do Programa Brasil-Espanha.

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