A Secretária de Estado para a Ibero-América e o Caribe e o Espanhol no Mundo desempenha um papel-chave na projeção da Espanha no espaço ibero-americano e no fortalecimento das relações com a América Latina
Como parte do Programa Brasil-Espanha de Aproximação ao Sistema de Cúpulas Ibero-Americanas, a Fundação Conselho Espanha-Brasil promoveu um encontro de alto nível com a Secretária de Estado para a Ibero-América e o Caribe e o Espanhol no Mundo, Susana Sumelzo, em um contexto marcado pela proximidade da Cúpula bilateral Espanha-Brasil e da Cúpula Ibero-Americana de Madri 2026. A reunião evidenciou o momento estratégico vivido pelas relações ibero-americanas, destacando o papel central do Brasil como ator imprescindível: “A Ibero-América só existe se o Brasil fizer parte”, afirmou.
Durante o encontro, representantes da delegação brasileira levantaram questões-chave sobre a percepção da Ibero-América no Brasil e os desafios para sua consolidação. Pedro Dallari destacou que, embora o conceito ibero-americano exista no meio acadêmico, persistem dúvidas sobre seu alcance geográfico e político. Na mesma linha, Hussein Kalout apontou a falta de financiamento para estudos ibero-americanos e a necessidade de uma diplomacia pública mais ambiciosa, que vá além dos círculos governamentais.
De outra perspectiva, Ricardo Della Coletta advertiu que a cobertura da Cúpula no Brasil dependerá, em grande medida, da participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, especialmente em um contexto eleitoral complexo, enquanto Marcelo Lins ressaltou a baixa visibilidade da Ibero-América na opinião pública brasileira e a oportunidade de se apoiar em “embaixadores naturais”, como a cultura, a gastronomia ou o esporte. Por sua vez, Thaís Herédia destacou a relevância do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul como elemento central da agenda.
Em sua resposta, a Secretária de Estado insistiu que o sucesso da próxima Cúpula não deve ser medido pelo nível de participação, mas pela capacidade de alcançar acordos concretos e tangíveis. Entre as prioridades, destacou a criação de um fundo para desastres naturais, o impulso de um fórum digital e o fortalecimento da mobilidade acadêmica, tanto de estudantes quanto de docentes. “A chave está em gerar resultados práticos que transcendam as diferenças ideológicas”, afirmou.
Da mesma forma, defendeu a necessidade de reforçar o papel do Brasil como motor da região e de promover uma maior convergência baseada em interesses nacionais, mais do que em alinhamentos ideológicos. Nesse sentido, destacou a importância da vontade política no mais alto nível para avançar na integração ibero-americana, bem como o potencial do espanhol e do português como línguas compartilhadas por centenas de milhões de falantes.
Outro dos eixos centrais do debate foi a comunicação. A Secretária de Estado enfatizou a necessidade de melhorar a narrativa em torno do espaço ibero-americano e de “fazer com que a sociedade compre a política”, reconhecendo as diferenças entre a cobertura midiática na Espanha e na América Latina. Nessa linha, propôs reforçar o papel das empresas como embaixadoras naturais e dar maior visibilidade à agenda ibero-americana, incluindo o tratamento do Mercosul na Cúpula empresarial.
A Secretária de Estado também defendeu o desenvolvimento de uma estratégia de cooperação com os Estados Unidos, bem como o impulso às cátedras ibero-americanas na Espanha e o reforço da colaboração com centros de pensamento como o Real Instituto Elcano.
Por sua vez, o Diretor-Geral para a Ibero-América e o Caribe, Javier Gassó, complementou a intervenção destacando que a Cúpula Ibero-Americana continua sendo um fórum de diálogo único, capaz de integrar posições diversas, inclusive em contextos de tensão política. Recordou episódios como o conhecido intercâmbio entre Juan Carlos I e Hugo Chávez como exemplo da relevância desse espaço como plataforma de diálogo direto.
Gassó destacou, no entanto, a persistente falta de comunicação e a necessidade de transmitir melhor à sociedade o valor do espaço ibero-americano, especialmente em áreas sensíveis como segurança, defesa e comércio. Ressaltou ainda que esse espaço não deve ser entendido como uma alternativa a outras doutrinas geopolíticas, mas como um marco próprio de cooperação.
Por fim, foram abordadas algumas das prioridades estratégicas futuras, como a posição ibero-americana diante da eleição do próximo Secretário-Geral das Nações Unidas, com o interesse de que recaia sobre um candidato latino-americano, e a promoção de novas iniciativas conjuntas, entre elas a declaração da Ibero-América como um espaço livre da pena de morte, o impulso a mediações internacionais e o desenvolvimento de missões médicas em zonas de conflito.
O encontro foi concluído com uma mensagem compartilhada: a Cúpula de Madri 2026 representa uma oportunidade-chave para consolidar o espaço ibero-americano como um ator relevante no cenário global, desde que se consiga traduzir o diálogo político em resultados concretos e visíveis para a sociedade.
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