Organizada pela Fundación Consejo España-Brasil e pela Cámara de Comercio Brasil-España para conhecer as prioridades econômicas e as perspectivas de cooperação e investimento
A Fundação Conselho Espanha-Brasil e a Câmara de Comércio do Brasil na Espanha organizaram em Madrid um almoço de trabalho com o Presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social do Brasil (BNDES), Aloizio Mercadante, com o objetivo de conhecer de primeira mão as prioridades econômicas do Brasil, as perspectivas de cooperação e investimento bilateral e as áreas estratégicas nas quais o BNDES está concentrando seus recursos. O encontro reuniu representantes de empresas espanholas com presença relevante no Brasil, do Ministério das Relações Exteriores e do Ministério da Economia da Espanha, assim como da Embaixada do Brasil em Madrid, e foi realizado em formato de diálogo aberto com rodada de perguntas.
O BNDES é a principal instituição financeira pública de desenvolvimento do Brasil, com um papel determinante no financiamento de infraestrutura, na inovação industrial e na transição energética. Seu presidente, Aloizio Mercadante, é uma figura de primeiro nível na política econômica do governo de Lula, e a reunião representou uma oportunidade excepcional de acesso direto à visão estratégica do governo brasileiro sobre o cenário internacional e as relações bilaterais com a Espanha.
Diagnóstico macroeconômico: um Brasil sólido em um ambiente global incerto
Aloizio Mercadante abriu sua intervenção com um balanço dos dados macroeconômicos do Brasil sob o governo de Lula, em comparação com o período anterior. O crescimento do PIB foi de 3% frente a 1,4% do ciclo precedente; a inflação foi reduzida de 6,6% para 4,6%; a taxa de desemprego encontra-se em mínimos históricos, com a maior taxa de população empregada da história do país; e a informalidade também atingiu seu nível mais baixo. A inflação de alimentos caiu de 11,9% para 3%. A bolsa de valores registra recordes históricos e a taxa de câmbio está abaixo de 5 reais por dólar ou euro. Em matéria de déficit público, Mercadante apontou uma melhora significativa: o déficit primário passou de -2,7% para -1%, reduzindo em quase um terço o desequilíbrio fiscal, embora tenha reconhecido que o problema das contas públicas não é menor e ainda requer atenção.
Esse cenário favorável é condicionado por um ambiente internacional excepcionalmente adverso. Mercadante identificou três fontes de instabilidade: a guerra Rússia-Ucrânia; a chegada de Trump com uma política diplomática, comercial e militar que qualificou como unilateral e agressiva, comparável a etapas históricas já superadas — como a intervenção em Porto Rico e Filipinas ou a doutrina Monroe na América Latina —; e o conflito no Oriente Médio, que levou ao fechamento do estreito de Ormuz, com impacto direto sobre os preços globais, especialmente para o Brasil, apesar de 84% do tráfego por essa via se destinar à Ásia. Dentro do BNDES, quatro setores da carteira estão sendo especialmente afetados por essas tensões.
A relação Espanha-Brasil: o poder brando e as oportunidades setoriais
Mercadante destacou o crescimento das relações bilaterais hispano-brasileiras nos últimos anos, com especial ênfase no que denominou poder brando: o conjunto de vínculos culturais, institucionais e empresariais que consolidam a presença da Espanha no Brasil para além do estritamente comercial. Assinalou que as empresas espanholas ocuparam espaços muito relevantes no Brasil nos setores de infraestrutura e mobilidade e que, cada vez que uma empresa espanhola supera uma limitação de acesso ao mercado, o faz sem gerar fricção, com integração natural ao tecido produtivo e social do país.
A Espanha, acrescentou, ocupa uma posição singular dentro da União Europeia: é o parceiro europeu com maior presença e implantação real no Brasil, o que lhe confere uma oportunidade única de atuar como porta de entrada e referência no âmbito da infraestrutura energética e de outros setores estratégicos. Já é o segundo investidor estrangeiro no Brasil — dado corroborado no debate pelo embaixador — e tem margem para crescer rapidamente em novas áreas.
Quatro setores estratégicos: IA, minerais críticos, energias renováveis e defesa
Mercadante identificou quatro grandes áreas prioritárias de atuação para o BNDES com potencial de cooperação com a Espanha.
A primeira é a inteligência artificial e a digitalização industrial. O BNDES criou um grupo de trabalho específico em eficiência e IA aplicada aos grupos de desenvolvimento, com estrutura própria de habilitação empresarial e equipes especializadas por problemática — tarifária, ambiental e outras. Na América Latina, o BNDES busca que sua influência nos algoritmos se integre à cultura local. O setor de IA requer grandes volumes de dados, e a Espanha — com o Barcelona Supercomputing Center como principal ativo computacional ibero-americano — é um aliado natural.
O segundo âmbito são os minerais críticos para a mobilidade. O Brasil possui grandes reservas de minerais estratégicos, entre eles o lítio, cujo 90% do mercado mundial está concentrado na China. Mercadante classificou esse setor como geopoliticamente central. O Brasil duplicou sua produção de veículos em um ano, com um modelo orientado ao híbrido flex — ao contrário da China, que aposta no elétrico puro, ou da Europa, onde os combustíveis fósseis ainda têm grande peso. A rapidez da evolução do setor exige que Espanha e Brasil avancem juntos na configuração de cadeias de valor para esses minerais. Mercadante também mencionou as terceiras maiores reservas mundiais de urânio do Brasil, com perspectivas de exploração voltadas ao desafio tecnológico e energético, sem pretensões armamentistas.
O terceiro setor é o das energias renováveis, no qual a Espanha já possui presença muito destacada no Brasil, especialmente em solar e eólica, bem como em infraestrutura de distribuição. Mercadante destacou que este é um campo em que a cooperação pode se aprofundar ainda mais, aproveitando a experiência técnica e regulatória espanhola no âmbito europeu.
O quarto setor mencionado foi a defesa, área na qual o Brasil declarou estar aberto a ampliar a cooperação com a Espanha, que já ocupa a posição de segundo investidor no país. Mercadante ressaltou que a escala das relações comerciais é fundamental para a competitividade e a eficiência econômica e que há margem para crescimento rápido nesse setor.
O papel do Brasil na nova ordem geopolítica latino-americana
Diante da pergunta de um dos participantes sobre como a América Latina — com 600 a 700 milhões de pessoas em uma região ainda muito fragmentada — deveria se posicionar frente ao novo cenário geopolítico global, Mercadante destacou o papel determinante do Brasil: o país concentra a maior parte do PIB e da população da América do Sul e tem, portanto, responsabilidade de liderança regional.
Seu posicionamento se estruturou em torno de vários eixos. O primeiro é o fortalecimento de uma cultura de paz: o Brasil aspira a ser, como a Espanha, uma referência na agenda de paz multilateral. O segundo é a defesa da democracia e das instituições multilaterais frente ao avanço da extrema direita, cuja verdadeira natureza, segundo Mercadante, está se tornando cada vez mais visível, ainda que sem plena tradução em queda nas pesquisas. Ele destacou o papel da Europa como referência na defesa da qualidade democrática.
Quanto à União Europeia, Mercadante reconheceu seu papel como ator fundamental do sistema internacional — com parlamento, regras comuns e instituições sólidas que refletem valores compartilhados com a América Latina —, mas apontou que seus mecanismos de consenso são excessivamente lentos e imobilistas. O Acordo UE-Mercosul foi citado como um primeiro passo decisivo para a reconstrução do multilateralismo e a consolidação da democracia, e como o marco da conexão estratégica entre Espanha e Brasil dentro do espaço europeu.
O debate: taxas de juros, turismo, minerais e cooperação tecnológica
O almoço incluiu uma rodada de perguntas na qual foram abordadas quatro questões adicionais relevantes para a relação bilateral.
A primeira foi a taxa de juros de longo prazo, que se situa acima de 14% e representa um obstáculo à atração de investimento estrangeiro. Mercadante reconheceu tratar-se de um problema sistêmico que deverá ser enfrentado pelo próximo governo — qualquer que seja sua orientação — e destacou que, apesar dessa dificuldade estrutural, a estabilidade do país tem permitido que os investimentos estrangeiros se mantenham ou até cresçam, o que demonstra a solidez do ambiente regulatório e jurídico brasileiro.
A segunda questão foi o setor turístico. O Brasil encerrou 2025 com 9,7 milhões de visitantes estrangeiros, um recorde histórico, com crescimento significativo em relação aos 6,7 milhões do ano anterior. Ainda assim, o número está abaixo do potencial do país. Mercadante identificou a infraestrutura aeroportuária como o principal gargalo: o Rio de Janeiro enfrenta sérios problemas de acessibilidade e saturação. A AENA, que já administra aeroportos-chave como São Paulo e Rio de Janeiro, assumiu recentemente 11 novos aeroportos em todo o território, abrindo uma oportunidade relevante de colaboração.
A terceira questão tratou dos obstáculos ao desenvolvimento de cadeias de valor em minerais críticos. Foram destacadas duas principais barreiras: os longos prazos de licenciamento ambiental e as dificuldades de financiamento. Mercadante explicou que o BNDES está apoiando a modernização do órgão responsável pelas autorizações de exploração mineral, utilizando inteligência artificial para agilizar processos, e que mantém forte compromisso com a agenda climática e de desastres naturais, com uma diretoria específica dedicada a essa área. No contexto da recente cúpula presidencial, Espanha e Brasil assinaram um Memorando de Entendimento entre seus respectivos ministérios de Economia e Energia para avançar nesse campo.
A quarta intervenção abordou como ampliar o impacto da cooperação tecnológica bilateral — que financia projetos de codesenvolvimento entre empresas espanholas e ibero-americanas — em um modelo baseado no intercâmbio de conhecimento mais do que na transação comercial. Aloizio Mercadante respondeu destacando que o BNDES alcançou um recorde histórico de financiamento em inovação industrial e que há um interesse explícito em avançar rumo a uma economia do conhecimento, mais produtiva e competitiva. A cooperação em inovação e tecnologia é, segundo ele, uma condição necessária para a competitividade de longo prazo.
Conclusões
O almoço com Aloizio Mercadante confirmou a solidez do momento bilateral hispano-brasileiro e a convergência de interesses entre os dois países em setores de futuro: energias renováveis, inteligência artificial, minerais críticos, infraestrutura e turismo. O Brasil apresenta um quadro macroeconômico favorável, com estabilidade jurídica e regulatória reconhecida pelos principais investidores internacionais como excepcional em escala global, embora ainda enfrente desafios estruturais — como juros elevados, pressão sobre as contas públicas e incerteza política diante das próximas eleições.
Para a Fundação Conselho Espanha-Brasil e as instituições presentes, o encontro destacou o papel que a Espanha pode e deve desempenhar como parceiro privilegiado do Brasil no novo cenário geopolítico: não apenas como segundo maior investidor estrangeiro, mas como ponte para a Europa e referência em áreas que vão das energias renováveis à diplomacia científica e tecnológica. O BNDES se consolida como um interlocutor estratégico de primeira ordem para articular essa agenda nos próximos anos.
Participantes
Entre os participantes encontravam-se:
BNDES: Aloizio Mercadante (Presidente), Bruno K. Reis y Luciana Costa
Fundación Consejo España-Brasil: Berta Fuertes Ferragut, Antonio Montes, Rafael Garranzo, Santiago Fernández Valbuena, Vega Yubero, Raffaella Ferreccio, Verónica San Narciso y Manuel de la Cámara
Cámara de Comercio de Brasil en España: Trinidad Jiménez García Herrera, Óscar Méndez Martínez, Jéssica Alves, Belén Ruigómez y Bárbara Álvarez Sánchez
Embajada de Brasil en España: Luiz Alberto Figueiredo Machado (Embajador) y Daniel Costa Figueiredo
Ministerio de Asuntos Exteriores, UE y Cooperación: Jordi Colgan Perera
Ministerio de Economía, Comercio y Empresa (Secretaría de Estado de Comercio): Teresa López Pradas
ACCIONA: José Entrecanales Carrión
Telefónica: Eduardo Navarro de Carvalho y Renata Dutra
Santander: Carlos Hazas de Oñate y Rafael Noya
Iberdrola: Bosco López-Aranguren y Celia Roldán Santías
Repsol / Repsol Sinopec Brasil: Ana Alés Muñoz
Indra: Javier López
MAPFRE: Borja de la Torre Marín
CDTI: Carlos de la Cruz Molina
Uría Menéndez: Pablo González-Espejo García
CFI: Javier del Río
Stefanini Brasil: Juan Pablo Rubio Pata
L.O. Baptista Advogados: Cássia Monteiro
Casa do Brasil: Cassio Roberto De Almeida Romano
IDBO Consultants: Roberto Sanz
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